«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MANIFESTE-SE CONTRA A REFORMA!!!

Por que sou contra a reforma da Previdência?

Eric Gil
Economista formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutorando em
Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná

O governo Temer, a imprensa e boa parte do empresariado
ligado ao setor financeiro, sobretudo, estão
m e n t i n d o
descaradamente ao povo brasileiro!!!
Saiba o porquê

Em qualquer grande jornal que você for ler ou assistir, hoje, verá o discurso estampado: a reforma da Previdência é urgente, se não o fizer o país quebrará. Este tem sido também o discurso do governo Temer, e em certa medida também do governo Dilma anteriormente (este com um pouco mais de resistência).

No entanto, apesar de tanto alarmismo, o governo e os grandes jornais se utilizam de um discurso falso para justificar a reforma da Previdência, o de que existe um déficit nas contas deste órgão, o famoso “Rombo da Previdência”. Mas por que isto é mentira?

Quando falamos sobre Previdência Social temos que contextualizá-la em um sistema maior, a qual está inclusa, a da Seguridade Social. A Constituição Federal define em seu artigo 194 que “a Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social”, e é formada pela Previdência Social, Saúde Pública e Assistência Social.

Para assegurar o funcionamento desta área, algumas receitas públicas são vinculadas diretamente à Seguridade. Este não é o caso apenas da arrecadação previdenciária, entre patrões e empregados, mas também pelo Estado (a partir de mais fontes de receita), formando um sistema tripartite.

De onde vem o dinheiro para a Seguridade Social que inclui a Previdência?

1º) Além das arrecadações diretamente previdenciárias (tanto urbana quanto rural) também constam como fonte de receita
2º) a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS),
3º) a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL),
4º) o Programa de Integração Social (PIS) e
5º) o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP) e
6º) receitas provenientes dos concursos prognósticos (que são sorteios do tipo loteria),
7º) além de recursos das próprias entidades.

Como podemos ver no gráfico acima, o sistema da Seguridade Social manteve-se no azul em todo o período exibido de 2008 a 2014 (dois trabalhos famosos por fazerem o recálculo das contas da Seguridade Social são a tese da professora do Instituto de Economia da UFRJ, Denise Gentil, e as publicações anuais da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil – a qual optamos por reproduzir aqui por ter números mais atualizados, até 2014), variando entre superávits de R$ 32,89 bilhões em 2009 e R$ 82,7 bilhões em 2012.

O cálculo correto (utilizando todas as fontes de receita constitucionalmente definidas para financiar Previdência, Saúde e Assistência Social) desautoriza os ideólogos da reforma previdenciária a dizer que existe o “rombo da Previdência”. Na verdade, o sistema que está inserido o órgão responsável pelo pagamento das aposentadorias, pensões, auxílios e outros benefícios recebe mais do que gasta, ou seja, a Seguridade Social goza sim de superávit ao menos até 2014, último cálculo feito pela ANFIP.

Mas por que a mídia e o governo insistem em dizer que existe um rombo?

Eles desconsideram que existem contribuições sociais que servem justamente para o financiamento disto, e contam apenas com as receitas provenientes do pagamento por parte do trabalhador e do empregador.

No entanto, quando uma receita se torna vinculada, ela necessariamente deve ser gasta na área. Por exemplo, o dinheiro que se arrecada com a CSLL deve ir necessariamente para gastos da Seguridade, e não para financiar pagamento com juros da dívida pública. O objetivo desta mistificação é ludibriar a população para acreditarem que a Previdência deve ser “reformada” e mesmo substituída pelos fundos privados, indo inclusive contra a Constituição que prevê a existência de uma contabilidade exclusiva para a Seguridade Social, que mostraria não haver déficit algum – para enganar os trabalhadores e convencê-los que suas aposentadorias são o problema vale até ser contrário ao que está na lei.

Junto à isto a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que esteve em vigor de 1994 até dezembro de 2015 e voltou há poucos meses, permite desvincular 30% (até ano passado o valor era de 20%) destas receitas para gastar com o que quiserem. Isto é o que possibilita o Governo pegar dinheiro que necessariamente financiaria a Previdência Social, a Assistência Social e a Saúde Pública e jogar na conta de pagamento de juros da dívida. Logo, além de superavitária, ainda tem seu dinheiro desviado para jorrar nas gordas contas dos banqueiros. [São os bancos e o sistema financeiro os maiores interessados na reforma da Previdência!!! Eles financiam a grande imprensa que vive falando a favor dessa reforma e fazendo terrorismo e alarmismo caso ela não aconteça!]

Por fim, o Governo Federal ignora que aumentou em 136% as desonerações da Previdência Social, principalmente a partir do Plano Brasil Maior, que permitiu o não pagamento da contribuição previdenciária patronal para diversos setores. Como esperar que o Governo Federal abra mão de mais de 44 bilhões de reais (a diferença das desonerações dadas antes do início da implementação da política de desonerações da Dilma, em 2010, até o seu ápice, em 2015 – o que pode ser visualizado no gráfico) e não ter efeito algum no dinheiro destinado à aposentadoria dos trabalhadores?

Além de tudo isto, a Previdência Social brasileira é uma forte política de DISTRIBUIÇÃO DE RENDA, tanto na cidade quanto no campo. Caso consigam o desmonte desta conquista da população, viveremos um grande retrocesso social, com uma maior concentração de renda e empobrecimento ainda maior dos que mais precisam. Por isto que eu digo, sim, é urgente o combate à esta reforma previdenciária.

Fonte: Pragmatismo Político – Economia – 23/09/2016 – 09h40 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

10 motivos para lutar contra Reforma
da Previdência (PEC 287/2016)

Sindjus-DF com edição do Sinjufego

1- A idade mínima de aposentadoria passará para 65 anos de idade, para homens e 60 anos para as mulheres.

2- O prazo mínimo de contribuição para a Previdência Social será elevado de 15 anos para 25 anos.

3- O tempo de contribuição para aposentadoria integral, que corresponde a 100% do benefício de direito de cada trabalhador (atualmente esse teto é de R$ 5.531,31), será de 49 anos. [Quem conseguirá receber esse teto máximo???]

4- Com a nova regra, o tempo para ter direito à aposentaria integral aumentará em quase 20 anos.

5- Para se aposentar integralmente na idade mínima de 65 anos, o trabalhador terá que ter começado a trabalhar, formalmente [com carteira assinada e tudo], aos 16 anos. [Isso mesmo!!!]

6- Já aqueles que, devido às altas taxas de desemprego, ficaram longos períodos sem trabalho formal, só poderão receber a aposentadoria integral se trabalharem até os 80 anos de idade ou mais. [É justo, não é mesmo???!!!]

7- A proposta prevê um mecanismo automático de ajuste da idade mínima. Esse gatilho depende da evolução demográfica. Assim, a cada vez que os dados do IBGE mostrarem aumento de um ano na expectativa de sobrevida do brasileiro a partir dos 65 anos, a idade mínima de aposentadoria subirá um ano.

8- A regra também valerá para o trabalhador rural, que normalmente tem jornadas mais extenuantes e pesadas que o trabalhador urbano. [Por enquanto, o Governo Federal está deixando de fora o trabalhador rural, mas isso é uma tática para facilitar a aprovação de, ao menos, a parte central da reforma!]

9- A nova regra, ao igualar o tempo de aposentadoria para homens e mulheres, desconsidera a realidade das trabalhadoras brasileiras, que geralmente assumem as tarefas de casa logo cedo, ainda na adolescência, e acumulam duplas ou triplas jornadas de trabalho. [O Governo parece ter voltado atrás nessa proposta. Mas não é impossível que ela seja reapresentada mais adiante. O “monstro” da reforma está sendo fatiado para ser menos indigesto ao Congresso!!!]

10- Nas pensões por morte, o valor pago à viúva ou ao viúvo passará a ser de 50% do valor do benefício recebido pelo contribuinte que morreu, com um adicional de 10% para cada dependente do casal. As pensões também não serão mais vinculadas ao salário mínimo.

Fonte: Jusbrasil – Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 – 08h36 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

Você sabia que...

Mário Gaudêncio

1) ... com a reforma da previdência a aposentadoria rural, muitas vezes a única fonte de renda do homem do campo estará comprometida?

2) ... com a reforma da previdência as pensões serão fragilizadas?

3) ... com a reforma da previdência você terá profundas dificuldades para se aposentar?

4) ... com a reforma da previdência você irá trabalhar mais para manter as grandes corporações?

5) ... só haverá reforma da previdência porque grande parte as empresas dão calote no governo federal não depositando o INSS? [E, pasmem vocês, o governo não recupera nem 1% dessa dívida!!! Tudo fica de graça, mesmo!!!]

6) ... só haverá reforma da previdência no setor público para os grupos de menor rendimento ou de inferior poder de influência?

7) ... a reforma da previdência deixará de fora os políticos, os juízes e os militares? [Pelo menos até o presente momento]

8) ... a reforma da previdência irá criar uma bolha econômica e provocará um desastre na renda do trabalhador?

9) ... com a reforma da previdência as aposentadorias por invalidez serão limitadas e direcionadas a um pequeno grupo de pessoas?

10) ... com a reforma da previdência haverá um aprofundamento das desigualdades sociais em virtude dos beneficiários serem limitados?

11) ... com a reforma da previdência a juventude que ascendeu à população econômica ativa [está trabalhando], além do adulto que se encontra no mercado, terão dificuldades de se aposentar por terem os seus regidos por contratos temporários?

12) ... com a reforma da previdência irá ocorrer uma limitação de recursos no mercado local?

13) ... com a reforma da previdência serão ampliadas as barreiras para reprovar pessoas em exames periciais que sofreram acidentes de trabalho?

14) ... a reforma da previdência é o aprofundamento da retirada de direitos fundamentais como o direito à educação, saúde, bem estar social, emprego, ou seja, é aquela que negará as cláusulas pétreas em favor da sociedade, especialmente daquela mais injustiçada?

15) ... a reforma da previdência negará ao trabalhador o direito de recompensa ao trabalho prestado à nação por toda sua vida, desconhecendo que os grandes e verdadeiros heróis da nação são os trabalhadores, sejam eles do campo, da cidade, da periferia, das comunidades quilombolas, das aldeias indígenas, dos caiçaras, etc.?

Fonte: Editorial Gaudêncio – 31 de março de 2017 – Internet: clique aqui. 
Vamos proteger nossa Previdência Social, patrimônio do povo brasileiro!
Escreva ao seu Deputado Federal,
manifestando-se contra
a reforma da Previdência

Não há pessoa neste país que possa dormir sossegada com aquilo que
está exposto e explicado acima!!!
Todos seremos afetados direta ou indiretamente!!!

Por isso mesmo, convido você a enviar, agora mesmo, e-mails aos DEPUTADOS FEDERAIS da sua região, de seu Estado e de seu país.

Para facilitar um pouco as coisas para você e tornar essa atitude mais rápida, pois o GOVERNO FEDERAL está querendo aprovar essas medidas nestas próximas duas semanas, explico abaixo como encontrar o endereço de e-mail dos Deputados Federais:

1. Clique aqui;
2. onde estiver escrito “Deputado” e, abaixo, “Selecione”, clique sobre a setinha e selecione o nome do Deputado Federal que você conhece, votou ou para o qual deseja escrever;
3. depois clique sobre “Buscar”;
4. aparecerá os dados sobre aquele deputado, bem como, a indicação de seu e-mail.
5. É só clicar sobre o endereço de e-mail que se abrirá automaticamente o seu navegador para escrever a sua mensagem.
6. Pode escrever para quantos Deputados Federais você desejar!

Eis um modelo de mensagem (e-mail) a ser enviado aos Deputados Federais:

Assunto: VOTE CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Exmo. Sr. Deputado Federal (Nome do deputado)  OU
Exma. Sra. Deputada Federal (Nome da deputada)

Venho por meio desta, manifestar a V. Exa. meu repúdio à Reforma da Previdência Social proposta pelo Governo do Presidente Michel Temer.
Se V. Exa. representa, de fato, o povo brasileiro, VOTARÁ CONTRA essa reforma.
Eu, minha família e amigos estaremos acompanhando a atuação de V. Exa. nesse delicado e importante momento da história de nosso país.
Atenciosamente,
(Seu nome completo, cidade e Estado)

sábado, 18 de novembro de 2017

33º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 25,14-30


Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 
14 «Um homem ia viajar para o estrangeiro.Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens.
15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou.
16 O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco.
17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois.
18 Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão.
19 Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados.
20 O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei”.
21 O patrão lhe disse: “Muito bem, servo bom e fiel! como foste fiel na administração de tão pouco,
eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!”
22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: “Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei”.
23 O patrão lhe disse: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!”
24 Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste.
25 Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence”.
26 O patrão lhe respondeu: “Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei
e que ceifo onde não semeei?
27 Então devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence”.
28 Em seguida, o patrão ordenou: “Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez!
29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.
30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes!”»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

NÃO ENTERRAR A VIDA

A parábola dos talentos é, seguramente, uma das mais conhecidas. Antes de sair de viagem, um senhor confia seus bens a três empregados. Os dois primeiros se põem imediatamente a trabalhar. Quando o senhor regressa, apresentam-lhe os resultados: ambos duplicaram os talentos recebidos. O esforço deles é premiado com generosidade, pois souberam responder às expectativas de seu senhor.

A atuação do terceiro empregado é estranha. A única coisa que lhe ocorre é «esconder debaixo da terra» o talento recebido e conservá-lo seguro até o final. Quando chega o senhor, entrega-lhe o talento pensando que respondeu fielmente aos seus desejos: «Aqui tens o que te pertence». O senhor o condena. Este empregado «negligente e preguiçoso» não entendeu nada. Somente pensou em sua segurança.

A mensagem de Jesus é clara:
* Não ao conservadorismo, sim à criatividade.
* Não a uma vida estéril, sim à resposta viva ao Criador.
* Não à obsessão por segurança, sim ao esforço arriscado para transformar o mundo.
* Não à fé enterrada debaixo do conformismo, sim ao seguimento comprometido com Jesus.

É muito tentador viver sempre evitando problemas e buscando tranquilidade: não nos comprometermos com nada que nos possa complicar a vida, defender nosso pequeno bem-estar. Não há uma forma melhor de viver uma vida estéril, pequena e sem horizonte.

O mesmo acontece na vida cristã. Nosso maior risco não é sairmos dos esquemas de sempre e cair em inovações exageradas, mas congelar nossa fé e apagar o frescor do Evangelho. Devemos nos perguntar sobre o que estamos semeando na sociedade, a quem difundimos esperança, onde aliviamos o sofrimento.

Seria um erro apresentar-nos diante de Deus com a atitude do terceiro servo:
«Aqui tens o que é teu.
Aqui está teu Evangelho, o projeto de teu Reino, tua mensagem de amor aos que sofrem.
Conservamos tudo fielmente.
Não serviu para transformar nossa vida nem para introduzir teu Reino no mundo.
Não quisemos correr riscos. Porém, aqui o tens intacto».


ARRISCAR-SE

Com frequência, compreendeu-se a religião como se fosse um sistema de crenças e práticas que servem para proteger-se contra Deus, porém não ajudam a viver de maneira criativa. Esta religião conduz a uma vida triste e estéril onde o importante é viver seguro diante de Deus, porém falta alegria e dinamismo.

Deve-se dizer sem rodeios. No fundo desse tipo de religião só há medo. Quem busca proteger-se de Deus é porque tem medo dele. Essa pessoa não ama Deus, não confia nele, não desfruta de sua misericórdia. Somente o teme e, por isso, busca na religião remédio para seus medos e fantasmas.

Depois de Jesus, não temos mais direito de entender e viver desse modo a religião. Deus não é um tirano que atemoriza os homens, buscando egoisticamente seu próprio interesse, mas um Pai que confia a cada um o grande dom da vida.

Por isso, Jesus imagina seus seguidores não como «observantes piedosos»
de uma religião, mas como crentes audaciosos dispostos a correr riscos e
superar dificuldades para «inventar» uma vida mais digna e feliz para todos.

Um discípulo de Jesus se sente chamado a tudo, menos enterrar sua vida de maneira estéril!

O terceiro servo da parábola é condenado não por fazer algo ruim porque, paralisado pelo temor a seu senhor, «enterrou» os talentos que lhe haviam sido confiados. A mensagem é clara. Não se pode devolver a vida a Deus dizendo: «Aqui está o que é teu. “A vida que me deste não serviu para nada». É um erro viver uma vida «religiosamente correta» sem nos arriscarmos a viver o amor de maneira mais audaciosa e criativa.

Quem somente busca cuidar de sua vida, protegê-la e defendê-la, a põe a perder.

Quem não segue as aspirações mais nobres de seu coração por medo de fracassar,
já está fracassando.
Quem não toma iniciativa alguma para não errar, já está errando.
Quem somente se dedica a conservar sua virtude e sua fé, corre o risco de enterrar sua vida.
Ao final, não teremos cometido grandes erros, mas também não teremos vivido!

Jesus é um convite a viver intensamente.

A única coisa que devemos temer é viver sempre com medo de arriscar-nos, com temor de sairmos do «correto», sem audácia para renovarmos, sem valor para atualizar o Evangelho, sem fantasia para inventar o amor cristão.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Onde está Deus?

Somos capazes de fazê-lo entrar nas 
nossas vidas?

Eugenio Bernardini
Teólogo e pastor valdense
Moderador da Mesa Valdense, o órgão representativo e administrativo da Igreja Valdense
Jornal “Il Fatto Quotidiano”
12-11-2017

“Onde está Deus?
Onde ele é perceptível nas tragédias da humanidade,
causadas também pelos conflitos religiosos, nas catástrofes naturais,
no sofrimento das doenças, no desenvolvimento de sociedades
cada vez mais despersonalizantes e individualistas?
Onde está Deus?
Deus está onde nós o deixamos entrar, entrar na nossa história,
nas nossas escolhas de vida, nas nossas consciências.”
EUGENIO BERNARDINI
Teólogo italiano valdense

De onde viemos?
Qual é o segredo das origens da vida humana?
No princípio, houve um desígnio superior ou somos frutos de reações químicas e físicas casuais, talvez replicadas ou replicáveis em outros mundos?
E, acima de tudo, para onde vamos?
Haverá um futuro para a humanidade, e qual será?

As tentativas de resposta a essas perguntas fundamentais são o motivo condutor de “Origem”, o último best-seller de Dan Brown, o prolífico autor de thrillers de fundo religioso, como “O código Da Vinci” e “Anjos e demônios”.

Assim como na maioria dos romances anteriores, o protagonista é Robert Langdon, professor de simbologia e iconologia religiosa em Harvard, que representa o olhar daquela cultura secular capaz de combater o extremismo e o totalitarismo religiosos, sem, por isso, se tornar ateia e capaz de reconhecer que, dentro de todas as grandes religiões, há movimentos e protagonistas que buscam o diálogo e a paz, e, por isso, devem ser respeitados e apoiados.

Particularmente, “Origem” é uma reflexão sobre o eterno conflito entre ciência e fé, mas partindo dos desafios, também éticos, que o desenvolvimento vertiginoso das novas tecnologias e da inteligência artificial nos colocam cotidianamente, transformando a nossa cotidianidade, mas também as nossas consciências.
Publicado no último dia 3 de outubro no Brasil - Editora Arqueiro - 432 páginas

Ainda haverá lugar para Deus em um mundo dominado pelas tecnologias e pela comunicação informática? É uma típica pergunta do Terceiro Milênio. O último século do segundo milênio, o século XX, fez-se a mesma pergunta – onde está Deus? – mas a partir de outro ponto de vista, o da experiência dilacerante das tragédias e dos sofrimentos das duas guerras mundiais e dos impiedosos massacres dos nacionalismos europeus.

Na Bíblia, dos Salmos ao Novo Testamento, também encontramos muitas vezes esta pergunta: onde está Deus? Quando e onde se manifesta ou se manifestará? Como em um dos textos sugeridos pelo lecionário que estamos seguindo – Un giorno, una parola (Ed. Claudiana 2017) – e que, de algum modo, são preparatórios para o período do Advento, que iniciará neste ano com o primeiro domingo de dezembro: “Os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu: ‘O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou: ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está no meio de vocês” (Lucas 17, 20-21; tradução da Bíblia Pastoral).

Entre os estudiosos, há diversas interpretações das palavras de Jesus – “O Reino de Deus está no meio de vocês” –, mas eu gostaria de partir de uma anedota judaica: “Um famoso rabi, um dia, surpreendeu alguns sábios que eram seus hóspedes, perguntando: ‘Onde Deus habita?’. Eles zombaram dele: ‘O que você está dizendo? O mundo está cheio da sua glória!’. Mas ele mesmo respondeu à sua própria pergunta: ‘Deus habita onde o deixam entrar’”.

Onde está Deus? Onde ele é perceptível nas tragédias da humanidade, causadas também pelos conflitos religiosos, nas catástrofes naturais, no sofrimento das doenças, no desenvolvimento de sociedades cada vez mais despersonalizantes e individualistas? Onde está Deus? Deus está onde nós o deixamos entrar, entrar na nossa história, nas nossas escolhas de vida, nas nossas consciências.

A pergunta justa, então, não deve ser dirigida a Deus: “Deus, onde estás?”.
Mas sim a nós: onde ou quando permitimos que Deus entre na nossa vida?

Quando o deixamos entrar, esta vida – tão pequena, fugaz, discutível – também adquire um valor imenso para nós, finalmente, porque, para Deus, a nossa vida sempre tem um valor imenso.

“O Reino de Deus não vem ostensivamente”, diz Jesus, mas vem para atrair os corações e para transformá-los, abandonando arrogâncias e a autossuficiências, medos e violências, e criando um espaço de vida para todos: “O Reino de Deus”.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 16 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Ordenação de homens casados pode estar próxima

Cardeal Reinhard Marx revela que o Papa pensa
em abolir o celibato clerical

Cameron Doody
Religión Digital
14-11-2017

Cardeal convida toda a Igreja a um amplo debate sobre o assunto.
Sobre o acesso ao sacerdócio dos chamados “viri probati” e também de
outras possíveis novas formas de liderança eclesial 
CARDEAL REINHARD MARX
Arcebispo de Munique e Freising na Alemanha, Presidente da Conferência Episcopal Alemã
e membro do grupo de cardeais que assessora Papa Francisco

O debate sobre a ordenação de homens casados já está sobre a mesa do Papa Francisco.

Durante um encontro, na semana passada, do Comitê de Católicos de Baviera, o purpurado alemão qualificou o desejo dos setores da Igreja onde mais se sofre a escassez de sacerdotes como “legítimo” e algo que “deve ser discutido”.

Segundo informa katholisch.de, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, também defendeu que, embora “isto não signifique que exista um impulso direto de Roma” para abordar esta problemática, o Papa já está pensando nela, e uma vez que a tenha por bem, “falará com seus conselheiros”, de modo que possa ser pensada e discutida na Igreja em geral, em “todas as suas vertentes”.

E embora tenha revelado estes progressos na questão da consagração dos viri probati – os homens com particular experiência em suas paróquias e com uma virtude e maturidade cristãs comprovadas –, o também presidente dos bispos alemães se referiu em termos mais sombrios sobre outa solicitação de grandes partes da Igreja, como é a ordenação das mulheres.

“Não há movimento” neste último, afirmou o cardeal, acrescentando que embora não possa “prometer nada”, neste momento, sobre se a ideia de mulheres diaconisas e sacerdotisas se tornará realidade ou não, está seguro que o debate continuará.
PAUL MICHAEL ZULEHNER
Teólogo e sacerdote católico austríaco, professor emérito e
um dos mais conhecidos e conceituados sociólogos
da religião da Europa

E não é que o cardeal Marx seja o único que está ansioso em implementar na Igreja novas formas de liderança tais como podem ser os padres casados ou as mulheres sacerdotisas. O teólogo Paul Zulehner concordou com o prelado em suas pregações para o futuro, sustentando, no mesmo encontro em Baviera, que “viveremos para ver” a abolição do celibato clerical na Igreja, “caso ninguém dê um tiro no Papa ou lhe envenene antes”.

“É um erro subordinar a celebração da Eucaristia ao celibato dos sacerdotes”, sustentou o teólogo vienense em seu discurso.

Traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 15 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.

Os saudosistas de um catolicismo medieval

Antes era melhor?

Massimo Faggioli
Professor de Teologia e Estudos Religiosos da Villanova University (EUA)
COMMONWEAL
13-11-2017

Não é surpresa que a Idade Média substituiu o período moderno no novo cânone do catolicismo neotradicionalista; a distância fornecida pelo tempo dá uma impressão conveniente de estabilidade. O problema é como ele está sendo usado para uma função puramente antimoderna; é uma visão ideológica da história, e um cul-de-sac [beco-sem-saída] muito perigoso, teológica e politicamente.
SESSÃO DO CONCÍLIO DE TRENTO
Arte de Matthias Burglechner - século XVI

No dia 31 de outubro deste ano, os católicos e protestantes marcaram, com espírito ecumênico e em tom polêmico, o aniversário do começo da Reforma. Poucos dias depois – 4 de novembro – veio a festa de São Carlos Borromeu, um dos grandes santos da Contrarreforma, ou “Reforma Católica”, ou ainda do “catolicismo moderno primitivo”, dependendo da interpretação histórico-teológica preferida dada a este longo período.

Borromeu, Santo Inácio de Loyola, São Felipe Neri e outros estiveram, certa vez, associados com a “idade de ouro” do catolicismo confessional, mas hoje esta época não parece tão dourada mais. Algumas das reações contra o Papa Francisco parecem ser a expressão da (ou parecem expressar um novo encantamento com a) cristandade medieval.

O debate atual sobre o pontificado de Francisco revela uma abordagem interessante da história, especialmente entre os que acusam o papa de promover o caos nas formas da instabilidade disciplinar e incerteza teológica entre os fiéis. Ele pressupõe uma visão particular deste pontificado e do chamado “catolicismo do Vaticano II”, em oposição à narrativa histórica do período pré-Vaticano II como um tempo de estabilidade e certeza. Há os que acreditam que o Vaticano II marcou o início de uma era de crise e desafios existenciais no catolicismo. Citam dados sobre a afiliação religiosa em declínio, a queda no número de clérigos e religiosos e apontam para os escândalos sexuais e financeiros. Mas é, na verdade, a mudança nos costumes sexuais que levam os críticos do Vaticano II a ver o colapso do catolicismo como um fruto do Concílio. Além disso, a visão deles sobre os papas destes últimos 50 anos se solidificou:
* Paulo VI é visto como um enigma, uma vítima – na melhor das hipóteses – de sua própria ingenuidade sobre a possibilidade de resgatar o catolicismo do progressismo radical;
* João Paulo II é poupado da associação com o Vaticano II e o pós-Vaticano II por meio de sua identificação com o anticomunismo e sua mensagem antiabortista;
* enquanto Bento XVI tem estado sujeito à apropriação neotradicionalista.
* Quanto ao Papa João Paulo I – que serviu por apenas 33 dias e de quem Francisco recentemente reconheceu as “virtudes heroicas” e, portanto, encontra-se no caminho para uma possível santidade –, resta saber se a Igreja descobrirá o “centrismo do Vaticano II” com o qual ele se identificava.

Esta leitura apocalíptica do Vaticano II não é novidade. Mas a forma como os seus adeptos, hoje, veem a história pré-Vaticano II – especialmente o período entre a Idade Média e a atualidade – é nova, e muito mais nostálgica.

Já na época do Vaticano II, a oposição dos céticos ou antagonistas das reformas conciliares tendem a separar os dois mundos: a Igreja pré-Vaticano II e a Igreja do Vaticano II – uma marcada pela certeza e a outra pela incerteza; tradição e estabilidade x reforma e revolução. Naquela época, durante os debates conciliares e o começo da Igreja pós-Vaticano II, a Igreja pré-Vaticano II era vista como mais simples, já que geralmente estava identificada com o Vaticano I (na maior parte, com a noção da primazia papal e da infalibilidade), com o Concílio de Trento e com a Igreja tridentina.

Antes do Concílio Vaticano II não havia estabilidade

A verdadeira narrativa histórica da era pós-Vaticano II ainda precisava tomar forma. Porém o trabalho dos historiadores nestes últimos 50 anos tornou o quadro da Igreja pré-Vaticano II mais complicado do que fariam aqueles chocados pelo Vaticano II. O período pré-Vaticano II, na realidade, não era mais estável – em termos teológicos, sociais e políticos – do que iriam ser os anos pós-Vaticano II. Por exemplo, embora o Concílio de Trento (1545-1563) possa ter ajudado a centralizar o poder no papado e “romanizado” o catolicismo (na liturgia e em outras áreas), ele também levou a um longo período de crises na aplicação das reformas introduzidas.

Para alguns, como o estabelecimento de seminários para a formação presbiteral, mais de um século se passaria antes que a maior parte das dioceses a implementasse. Roberto Bellarmino, um dos teólogos mais importantes do período pós-Trento, enviou ao Papa Clemente VIII um memorando na virada do século XVII indicando que o concílio havia sido um fracasso e que se fazia necessário um outro concílio.

Em seguida, houve as guerras religiosas que devastaram a Europa até 1648 (terminadas por um tratado de paz internacional que humilhava o papado ao reduzir o seu papel no mundo), bem como a luta católica feroz interna sobre “o que aconteceu em Trento” (o conflito entre o padre veneziano e estadista Paolo Sarpi e o jesuíta romano Pietro Sforza Pallavicino é particularmente ilustrativo), que só se encerrou na segunda metade do século XX com a “História do Concílio de Trento”, obra em quatro volumes de Hubert Jedin.

A corrupção na Roma papal condenada por Lutero fora dissipada somente no final do século XVII, sob os papados de Inocêncio XI e Inocêncio XII – isto é, quase dois séculos depois da viagem de Lutero a Roma. Em outras palavras, os anos pós-Trento não exemplificam, na verdade, a noção de um cristianismo perfeitamente estável.

Os anos pós-Vaticano I dificilmente são um exemplo melhor. Este período ficou marcado não só pelo pequeno cisma dos católicos que se recusaram a aceitar as novas doutrinas a respeito do poder papal, mas também – e isso é o mais importante – pela tragédia mais grave na história intelectual moderna do catolicismo: a purga antimoderna iniciada em 1907 sob o comando de Pio X (hoje São Pio X) e o serviço secreto do Vaticano que ele criou para espionar os teólogos. A declaração da infalibilidade papal era uma resposta a – mas não uma solução para a – perda do poder temporal e do isolamento internacional do Vaticano. Depois, seguiu-se a ascensão do marxismo e a cooperação católica com o nacionalismo, levando à Primeira Guerra Mundial, ao fascismo e ao nazismo. A cooperação dos católicos franceses na Action Française levou Pio XI dispensar o jesuíta Louis Billot de seu título de cardeal em 1926. Estas coisas parecem sinais de estabilidade?

Vejamos também o que o futuro Papa João XXIII disse em suas visitas a paróquias e dioceses pela Europa nas décadas de 1920 e 1930, primeiro como secretário de seu bispo no norte da Itália, depois como enviado papal para angariar verbas a missões no começo dos anos 20 e, finalmente, como diplomata papal na Bulgária. Nesse país, ele ficou surpreso com o estado miserável da disciplina eclesiástica, especialmente com respeito à obediência e à castidade entre o clero. Sobre um padre que tinha, de fato, uma família, o futuro papa observou: nisi caste, saltem caute –se não se consegue ser casto, pelo menos tenha cautela”. O debate sobre o celibato não é um fenômeno pós-Vaticano II; antes do concílio, alguns grupos de bispos exigiam que se abordasse a questão. Não só foram ignorados, mas a petição deles foi expurgada do registro oficial do Vaticano II, como descobriu há poucos anos o historiador da Igreja brasileiro José Oscar Beozzo.

Portanto, o constructo de um período tumultuado pós-Vaticano II versus a calmaria dos períodos pós-Trento e pós-Vaticano I parece menos credível. E talvez isto explique o neomedievalismo de certas vozes dentro do catolicismo americano, uma espécie de duplicação das certezas do passado. Não são só os tuítes de uns poucos tradicionalistas radicais católicos, mas algo que parece estar acontecendo no nível intelectual também. Tive essa impressão com algumas das obras que li nos últimos cinco anos ou mais.

Entre o “Defending Constantine”, de Peter J. Leithart, e o “The Unintended Reformation”, de Brad Gregoryi, parece que até mesmo o pensamento teológico está tendendo em direção à cristandade medieval. (Não se trata apenas de uma síndrome católica, como ilustram as tensões entre as comunidades “tradicionais” e “modernas” ortodoxas orientais nos EUA).

Houve também uma série de artigos publicados em First Things sobre a necessidade de se redescobrir uma cristandade viável e, claro, uma cosmovisão dedicada, expressa por Rod Dreher em “The Benedict Option”. Em artigo recente de Ross Douthat dedicado à Reforma Protestante, podemos claramente ver o enquadramento da Reforma como notoriamente próximo ao pré-Vaticano II (e à cultura anti-Vaticano II da Fraternidade Sacerdotal São Pio X) – um “Weltanschauung católico”, isto é, um enquadramento do nosso tempo na genealogia dos “erros modernos”: a Reforma que destrói a unidade da cristandade ocidental e que inaugura o liberalismo social, político e teológico que, finalmente, nos deu Donald Trump. Um fascínio renovado com o medievalismo teológico também parece relacionado com a reação de setores particulares do cristianismo anglo-europeu, do catolicismo branco americano a desafiar a perspectiva da chamada “América pós-cristã” e a solicitação de um paradigma teológico que sustente uma ordem mundial “pós-liberal”.

Na qualidade de católico europeu italiano que se mudou para os Estados Unidos em 2008 e que tem lecionado e escrito sobre o catolicismo, penso ser impossível superestimar a influência clara da imaginação medieval católica no catolicismo americano em comparação a todas as outras igrejas católicas no mundo. Esta influência é poderosa, vista não apenas na arquitetura dos campi universitários, mas na maneira como a Igreja deste país quer ser percebida “pelo mundo” em geral. Além do cânone teológico que abrange os séculos entre Agostinho e Tomás de Aquino, parece haver bastante espaço tanto para o antimodernismo quanto para o pós-modernismo.

Sempre houve um movimento contrário ao Vaticano II, mas também tem existido um
catolicismo aconciliar” mais sutil – como se o Vaticano II nunca tivesse acontecido ou que
errou em muitas coisas (a narrativa antimoderna), ou que o Vaticano II é
um passé e nada tem a nos dizer hoje (a abordagem pós-modernista).
Mas agora parece haver menos espaço para o que a teologia católica (incluída a teologia política)
foi entre o período moderno inicial (Erasmo incluído) e a nouvelle théologie
que levou ao Concílio Vaticano II.
MASSIMO FAGGIOLI
Especialista em História da Igreja & Teologia Católicas

Além disso, o chamado movimento de “reforma católica”, do final do século XV em diante (incluindo Trento), parece ter se tornado demasiado moderno para os que leem a hermenêutica ratzingeriana da “continuidade versus descontinuidade” como uma rejeição, pura e simples, de qualquer desenvolvimento histórico-teológico na tradição católica, esquecendo-se que Bento XVI falou sobre “continuidade e reforma”.

O “ressourcement [retorno às fontes] como antimodernismo e anti-histórico, e o pós-modernismo como pós-tradicional e pós-histórico: tal polarização de visões da história da Igreja é um dos aspectos particulares da recepção teológica do Vaticano II nos Estados Unidos. O Papa Francisco não causou esta involução intelectual, mas, hoje, ele precisa lidar com ela. Veja-se a reação negativa às suas recentes declarações sobre a pena de morte; as reações contra Amoris Laetitia surgem aqui também.

A redução da tradição católica a um catolicismo medieval imaginário tem consequências significativas para a vida intelectual da Igreja Católica nos Estados Unidos, e para a maneira como ela percebe e responde “politicamente” às mudanças sociais e cultuais dos últimos 50 anos. Não é surpresa que a Idade Média substituiu o período moderno no novo cânone do catolicismo neotradicionalista; a distância fornecida pelo tempo dá uma impressão conveniente de estabilidade. O problema é como ele está sendo usado para uma função puramente antimoderna; é uma visão ideológica da história, e um cul-de-sac [beco-sem-saída] muito perigoso, teológica e politicamente.

Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa, com correções de Telmo José Amaral de Figueiredo. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 16 de novembro de 2017 – Internet: clique aqui.